Ficha Técnica

Formação: Agronomia - UFRGS (1950)

Empresa: BASF (indústria química alemã)

Período na BASF: 1957–1970 (13 anos)

Países onde atuou: Alemanha, Venezuela, Marrocos, Espanha

Transformação: De executivo químico a ambientalista

O Jovem Agrônomo e a Indústria

José Lutzenberger formou-se em Agronomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1950, em um período em que o modelo agrícola baseado na mecanização, no uso intensivo de fertilizantes químicos e na expansão da produtividade era visto como símbolo de progresso e modernização. Assim como muitos profissionais da época, Lutzenberger iniciou sua carreira alinhado a essa visão de desenvolvimento agrícola.

Seu trabalho inicial estava voltado principalmente à atuação técnica como engenheiro agrônomo, com foco na melhoria da produção agrícola por meio de tecnologias químicas e industriais.

Carreira na BASF

Pouco tempo após sua graduação, ingressou na empresa alemã BASF, iniciando uma carreira ligada diretamente ao setor químico-agrícola. Na empresa, trabalhou com a venda, promoção e orientação técnica sobre fertilizantes e defensivos agrícolas, produtos considerados fundamentais para aumentar a produtividade das lavouras.

Essa experiência o levou a atuar em diferentes países da América Latina, ampliando seu contato com diversas realidades econômicas, sociais e ambientais. Entre as décadas de 1950 e 1960, Lutzenberger construiu uma sólida formação técnica e adquiriu prestígio profissional dentro do setor agrícola industrial.

Durante esse período, viveu em países como Venezuela e Marrocos, desenvolvendo uma carreira internacional de destaque. O cargo que ocupava na BASF lhe garantia estabilidade financeira, viagens frequentes e contato com diferentes culturas.

O Intelectual Inquieto

Ao mesmo tempo, utilizava grande parte de seu tempo livre para aprofundar estudos em áreas que iam além da agronomia. Demonstrava forte interesse por matemática, biologia, história, filosofia, religiões e ciências naturais. Seu perfil intelectual era bastante amplo, e isso contribuiu para que passasse a questionar algumas ideias predominantes do modelo industrial de produção agrícola.

"Você precisa ter consciência de que é homem de adubo. Tem que se interessar por adubo!"

- Superior de Lutzenberger na BASF, tentando limitar seus interesses científicos

Influências Decisivas

Na Venezuela, Lutzenberger conheceu o cientista Leon Croizat, estudioso da biogeografia e da evolução das espécies. Esse contato teve grande influência em sua formação intelectual, despertando nele uma visão mais integrada da natureza e dos ecossistemas. Aos poucos, começou a perceber que o equilíbrio ambiental era muito mais complexo do que imaginava a agricultura industrial da época.

Outro fator decisivo para sua mudança de pensamento foi o contato com as obras da bióloga e escritora Rachel Carson, especialmente o livro "Silent Spring" (Primavera Silenciosa), publicado em 1962. A obra denunciava os graves impactos ambientais causados pelo uso indiscriminado de pesticidas e agrotóxicos, alertando para a contaminação do solo, da água, dos animais e até dos seres humanos.

O livro provocou forte reação da indústria química internacional, que tentou desacreditar Carson e minimizar suas denúncias. Lutzenberger, mesmo trabalhando dentro desse setor, discordava da maneira agressiva como a pesquisadora era atacada e passou a refletir mais profundamente sobre os riscos ambientais associados à agricultura química.

O Conflito Interno

Apesar dessas inquietações, Lutzenberger ainda não se considerava um ambientalista. Continuava atuando como técnico especializado em fertilizantes e defensivos agrícolas, embora suas dúvidas sobre os impactos desse modelo aumentassem progressivamente.

A grande mudança em sua visão ocorreu quando foi transferido para o Marrocos a serviço da BASF. Nessa época, a empresa ampliava significativamente sua produção de agrotóxicos, fortalecendo sua participação no mercado químico internacional. Lutzenberger passou então a viver um intenso conflito ético e profissional.

O contato direto com problemas causados pela poluição industrial, pela degradação dos solos e pelo uso excessivo de produtos químicos fez com que suas convicções mudassem gradualmente. Ele passou a enxergar que o modelo agrícola moderno, embora eficiente economicamente no curto prazo, poderia causar sérios danos ambientais e sociais.

O Rompimento

O conflito entre suas ideias pessoais e a política da empresa tornou-se cada vez mais insustentável. Em 1970, após 13 anos de carreira e anos de dúvidas e questionamentos, decidiu pedir demissão da BASF.

Essa decisão representou uma profunda transformação em sua vida. A partir desse momento, passou a dedicar-se à defesa do meio ambiente e à crítica do modelo agrícola baseado no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Conclusão

Assim, Lutzenberger transformou-se em um dos mais importantes ambientalistas brasileiros. No ano seguinte ao seu desligamento da BASF, em 1971, fundou a AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), uma das primeiras entidades ecológicas do Brasil, iniciando uma nova fase de sua vida dedicada inteiramente à causa ambiental.

Sua trajetória demonstra que é possível rever conceitos, questionar o sistema estabelecido e mudar radicalmente de rumo quando se adquire consciência dos impactos que nossas ações profissionais podem causar ao planeta.